Entrevista e edição · FarmaCerto
Buscas, redes sociais e ferramentas de inteligência artificial disputam hoje a atenção de quem procura informação sobre saúde. Para a jornalista Leda Sangiorgio, que acompanha a comunicação do setor há mais de três décadas, o problema não é a tecnologia, e sim a falta de curadoria. Nesta entrevista, ela explica como o leitor pode reconhecer um conteúdo confiável e quais cuidados agências, marcas e profissionais deveriam adotar.

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Como saber se um conteúdo de saúde é confiável
Quais sinais o leitor comum deve observar para saber se um conteúdo de saúde é confiável, seja num site, numa rede social ou numa resposta de IA?
Inicialmente, o mais importante é que o leitor procure fontes confiáveis, como sites de instituições reconhecidas, hospitais renomados, universidades, clínicas e médicos especialistas. Os veículos da grande imprensa também tendem a ser mais confiáveis quando comparados a sites, blogs ou perfis de redes sociais de origem desconhecida, especialmente quando contam com jornalistas especializados e processos de apuração e checagem das informações.
Por outro lado, é importante destacar que mesmo instituições e profissionais de saúde reconhecidos utilizam a Inteligência Artificial (IA) na produção de conteúdo, e isso não é necessariamente ruim. Na verdade, a IA é um recurso extraordinário quando utilizada de maneira adequada e responsável.
“A diferença está na curadoria.”Leda Sangiorgio
A diferença está na curadoria. Em um processo responsável de produção de conteúdo, existe a participação humana, com profissionais qualificados que orientam a elaboração dos materiais, revisam as informações, verificam as fontes e acrescentam ou retiram dados sempre que necessário.
Portanto, minha principal recomendação é que o leitor priorize fontes reconhecidas e procure identificar quem é o responsável pelas informações publicadas.
Quanto às respostas geradas por IA, existe um aspecto interessante. Essas ferramentas podem utilizar diferentes critérios para selecionar e apresentar fontes, considerando fatores como relevância, qualidade e autoridade do conteúdo. Entretanto, isso não significa que todas as fontes citadas sejam necessariamente confiáveis ou que as respostas estejam sempre corretas.
Vou dar um exemplo: alguém pergunta à IA como funciona o pós-operatório de uma cirurgia de estrabismo. A ferramenta pode apresentar, entre suas referências, um artigo escrito por uma oftalmologista especialista em estrabismo. Esse conteúdo pode reunir características que favorecem sua identificação como uma fonte relevante, como referências a estudos científicos, identificação da médica responsável, número de registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) e Registro de Qualificação de Especialista (RQE), entre outros elementos.
Por fim, há algo fundamental: o leitor jamais deve utilizar conteúdos encontrados na internet ou respostas de IA para se automedicar ou estabelecer um diagnóstico por conta própria. A comunicação em saúde precisa ser feita com responsabilidade, incluindo orientações claras sobre a importância de procurar avaliação médica diante de sintomas ou dúvidas relacionadas à saúde.
Os erros mais comuns de agências e marcas
Na sua experiência, quais são os erros mais comuns na comunicação de saúde hoje, inclusive em conteúdos produzidos por agências e marcas?
Antes de falar dos erros mais comuns, gostaria de reforçar a importância da comunicação em saúde para a população. Estamos falando de uma ferramenta estratégica e essencial para a promoção da saúde e do bem-estar coletivo. Essa comunicação influencia diretamente o comportamento das pessoas, suas decisões e a maneira como cuidam da própria saúde. Isso representa uma enorme responsabilidade para quem produz conteúdos nessa área.
Por essa razão, é fundamental que as informações sejam fundamentadas em evidências científicas, estejam atualizadas e sejam transmitidas de forma ética, clara e acessível. Além disso, quem trabalha com comunicação em saúde também tem o compromisso de combater a desinformação e contribuir para fortalecer a confiança da população na ciência.
Na minha avaliação, um dos principais erros cometidos por agências e marcas é substituir profissionais especializados em comunicação e saúde, como jornalistas com experiência no setor, nutricionistas, farmacêuticos, médicos e pesquisadores, por profissionais que não possuem a formação ou a experiência necessárias para lidar com a complexidade desses conteúdos.
Na comunicação em saúde, o conhecimento especializado faz toda a diferença, inclusive no jornalismo. Ao longo dos meus mais de 30 anos de carreira, acompanhei de perto o trabalho de uma imprensa altamente especializada. Nos grandes veículos de comunicação, especialmente jornais e revistas, existiam equipes inteiras dedicadas à cobertura de saúde, compostas por editores, subeditores, repórteres e pauteiros. Alguns veículos também contavam com colaboradores especializados, como médicos e profissionais de outras áreas da saúde.
Essa especialização contribuía para uma cobertura mais aprofundada, contextualizada e criteriosa dos temas relacionados à saúde.
Atualmente, além de algumas agências e marcas delegarem a produção de conteúdo a profissionais com pouca experiência na área, enfrentamos outro problema: o uso indiscriminado da Inteligência Artificial, sem critérios adequados de apuração, revisão e curadoria.
O resultado pode ser a disseminação de conteúdos superficiais, descontextualizados ou até mesmo incorretos, o que compromete a qualidade da informação e a credibilidade de quem a publica.
Conheça a Agência Health
Quem trabalha com saúde e precisa comunicar com responsabilidade encontra na Agência Health uma equipe liderada por quem atuou na imprensa especializada e na indústria farmacêutica. Leda une apuração jornalística, conhecimento do setor e estratégias atuais de SEO e GEO para construir autoridade sem abrir mão da precisão. É um trabalho que preserva a reputação de quem publica e a confiança de quem lê.
Visitar a Agência HealthO papel da revisão antes de publicar
Qual deve ser o papel da revisão por profissionais de saúde e por jornalistas especializados antes de um conteúdo ser publicado?
Sem dúvida, essa revisão é fundamental. Entretanto, na minha experiência, esse cuidado ainda não é uma prática suficientemente valorizada em muitas agências de marketing digital e na produção de conteúdos para sites, blogs e redes sociais.
A revisão deve envolver diferentes competências. O profissional de saúde tem o conhecimento técnico necessário para avaliar a precisão científica das informações, enquanto o jornalista especializado contribui com a apuração, a contextualização, a checagem das fontes e a adequação da linguagem ao público.
São competências complementares e essenciais para garantir que o conteúdo seja, ao mesmo tempo, cientificamente correto, compreensível e relevante para o leitor.
“Não basta uma informação estar tecnicamente correta. Ela também precisa ser apresentada dentro do contexto adequado.”Leda Sangiorgio
É importante lembrar que não basta uma informação estar tecnicamente correta. Ela também precisa ser apresentada dentro do contexto adequado, sem simplificações excessivas, interpretações equivocadas ou afirmações que possam induzir o leitor ao erro.
Por isso, considero que a revisão técnica e editorial deve fazer parte do processo de produção de qualquer conteúdo de saúde, especialmente quando envolve orientações sobre doenças, sintomas, diagnósticos e tratamentos.
IA como apoio, nunca como substituta
Que cuidados empresas, agências e profissionais deveriam adotar ao usar IA para produzir conteúdo de saúde?
A Inteligência Artificial deve ser uma ferramenta de apoio, jamais um substituto do conhecimento técnico e da validação humana.
Acima de tudo, precisamos estar cientes de que, na área da saúde, informações incorretas ou descontextualizadas podem levar as pessoas a tomar decisões inadequadas, recorrer a tratamentos ou procedimentos sem comprovação científica e, consequentemente, colocar a própria saúde em risco.
Por isso, na produção de conteúdos de saúde, é fundamental que o profissional utilize recursos que vão além da IA, como a consulta a artigos científicos e materiais publicados em fontes reconhecidas, incluindo PubMed/MEDLINE, SciELO, Cochrane Library e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), além de diretrizes de sociedades médicas e órgãos oficiais.
A IA pode acelerar processos, auxiliar na organização das informações e contribuir para a produção de conteúdo. Entretanto, a responsabilidade pela precisão, atualização e confiabilidade das informações continua sendo dos profissionais envolvidos.
Além disso, a comunicação deve ser clara, acessível, ética e adequada aos diferentes públicos, evitando o sensacionalismo, as promessas de resultados e a divulgação de informações sem respaldo científico.
Quem é Leda Sangiorgio
Leda Sangiorgio é jornalista, especialista em comunicação estratégica e marketing em saúde, com mais de 30 anos de experiência profissional no setor. Há 10 anos, está à frente da Agência Health, empresa que fundou com foco em comunicação, reputação e posicionamento de médicos, clínicas, empresas de saúde e indústria farmacêutica.
Ao longo de sua carreira, atuou em empresas e organizações como Shire, Nycomed, Libbs, Genzyme, Interfarma, Ketchum, Hill & Knowlton, Máquina da Notícia e Editora Abril, ocupando posições de gestão e consultoria.
É formada em Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu, possui MBA em Gestão de Sistemas de Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e estudou Business Communications no Canadá.
Atualmente, sua atuação integra comunicação corporativa, marketing médico, produção de conteúdo especializado, SEO, GEO e estratégias de posicionamento em mecanismos de busca e ferramentas de Inteligência Artificial, com foco na construção de autoridade, credibilidade e reputação no setor de saúde.
Sobre esta entrevista. Respostas enviadas por escrito em 15 de outubro de 2026 e conferidas pela entrevistada antes da publicação. Pauta editorial, não patrocinada. Dados biográficos informados pela entrevistada. Foto de Leda Sangiorgio: arquivo pessoal, cedida para uso editorial.
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