Eleições 2026: o que está em jogo para o SUS e o acesso a medicamentos no Brasil

Wagner Fernandes

Wagner Fernandes
Farmacêutico · CRF-RO 4509
Atualizado em 4 de outubro de 2026

O Brasil vota hoje, 4 de outubro de 2026, para presidente, governadores, senadores e deputados. Para quem depende do posto de saúde, do Farmácia Popular ou do remédio de uso contínuo, a pergunta prática é uma só: o que pode mudar depois da eleição?

Este texto explica o que o próximo governo consegue de fato alterar no SUS e no acesso a medicamentos, e reúne o que os planos de governo dizem sobre saúde. O FarmaCerto não apoia candidato nem partido. Aqui não há resultado de apuração: os números oficiais estão no site do Tribunal Superior Eleitoral.

Em resumo

  • O SUS está na Constituição. Nenhum presidente acaba com ele por decisão própria.
  • O que muda de governo para governo é dinheiro, prioridade e forma de organizar o atendimento.
  • Farmácia Popular, lista de remédios do SUS e teto de preços dependem de decisões do governo federal.
  • Os planos de governo falam muito em filas e pouco em medicamentos.

O que o resultado da eleição pode mudar na saúde

Três eleitos têm peso direto sobre o seu atendimento:

  • Presidente: escolhe o ministro da Saúde, propõe o orçamento federal e define os programas nacionais, como o Farmácia Popular e as campanhas de vacinação.
  • Deputados e senadores: aprovam o orçamento, criam e alteram leis da saúde e destinam emendas parlamentares para hospitais e municípios.
  • Governadores: administram hospitais estaduais, a regulação de leitos e a entrega de medicamentos de alto custo.

As unidades básicas de saúde são dos municípios, e prefeitos não estão em disputa nesta eleição. Mas o dinheiro que chega a elas vem em boa parte de repasses federais e estaduais.

Quatro pontos que mexem com o seu remédio

1. O dinheiro da saúde

A Constituição obriga a União a aplicar em saúde um valor mínimo, calculado sobre a receita. Esse piso é tema recorrente no debate fiscal. Qualquer mudança na regra passa pelo Congresso, e é ela que define quanto sobra para comprar medicamentos, contratar exames e manter programas.

2. O Farmácia Popular

Desde fevereiro de 2025, todos os 41 itens do programa são gratuitos, segundo o Ministério da Saúde. A lista, a gratuidade e o número de farmácias credenciadas dependem de portarias e do orçamento de cada ano. É o tipo de programa que um novo governo pode ampliar, manter ou redesenhar.

3. A lista de remédios do SUS

Um medicamento novo só entra no SUS depois de avaliado pela Conitec, a comissão que analisa eficácia e custo. A decisão final é do Ministério da Saúde. A velocidade dessas incorporações e a verba para comprá-las variam conforme a prioridade de cada gestão.

4. O preço na farmácia

O preço máximo de cada medicamento e o teto do reajuste anual são definidos pela CMED, câmara ligada ao governo federal. A regra atual está em lei. Mudá-la exige novo projeto aprovado pelo Congresso.

O que os planos de governo dizem sobre saúde

Todo candidato a presidente registra um plano de governo no TSE. Os pontos abaixo vêm de dois levantamentos jornalísticos sobre esses planos, do Futuro da Saúde e da Gazeta da Amazônia. São promessas, não medidas aprovadas. A ordem é alfabética, e a lista traz apenas os seis candidatos cujas propostas de saúde aparecem nesses levantamentos. Há outras candidaturas registradas.

  • Augusto Cury (Avante): política nacional de saúde mental envolvendo escolas e empresas, plataforma nacional de consultas online com meta de espera de até 30 minutos no atendimento remoto e reforço das equipes da atenção básica.
  • Flávio Bolsonaro (PL): uso da capacidade ociosa da rede privada para exames e consultas do SUS, ampliação da Estratégia Saúde da Família, teleatendimento, incentivo à produção nacional de vacinas e ampliação do diagnóstico de TDAH, depressão e ansiedade.
  • Lula (PT): ampliação do atendimento especializado com participação de hospitais privados e filantrópicos, fila única digital ordenada por risco clínico, mais investimento na rede de atenção psicossocial e fortalecimento da produção nacional de insumos farmacêuticos.
  • Renan Santos (Missão): fila organizada por gravidade e não por ordem de chegada, meta de resolver 80% dos casos na atenção primária, repasses condicionados a desempenho e plataforma nacional de vacinas de RNA mensageiro.
  • Romeu Zema (Novo): mais parcerias com a rede privada para consultas, exames e cirurgias, concessões e PPPs na gestão de unidades, repasses com incentivo por resultado e aproximação entre universidades e indústria farmacêutica.
  • Ronaldo Caiado (PSD): meta de reduzir em pelo menos 50% o tempo das filas prioritárias até 2030, sistema nacional de regulação com indicadores públicos, financiamento que considere resultados e ampliação de parcerias para produzir medicamentos no país.

Para ler a proposta inteira de qualquer candidato, o caminho é o DivulgaCandContas, do TSE.

O que quase não aparece: o remédio do dia a dia

Vistos do balcão da farmácia, os planos têm um ponto em comum. Quase todos tratam de filas, cirurgias e consultas com especialistas. O acesso ao medicamento, que é onde o tratamento costuma falhar, aparece pouco.

Nos dois levantamentos consultados, nenhum resumo destaca proposta específica para o Farmácia Popular, para o reajuste anual de preços ou para a falta de remédios nas unidades de saúde. Isso não quer dizer que os planos ignorem o tema, e vale conferir o documento completo. Mas mostra onde está a atenção da campanha.

Quando o assunto medicamento aparece, é pelo lado da indústria: produção nacional de insumos, parcerias de transferência de tecnologia e vacinas. São medidas de longo prazo, que não mudam o que o paciente encontra na prateleira no ano que vem.

Três perguntas para fazer a qualquer candidato

  1. O Farmácia Popular continua gratuito e com a lista atual? Ela será ampliada?
  2. De onde sai o dinheiro para cumprir as metas de fila, e o piso da saúde será mantido?
  3. Em quanto tempo um medicamento aprovado pela Conitec chegará de fato ao paciente?

As respostas valem para presidente, mas também para deputados e senadores, que votam o orçamento.

Enquanto nada muda: seus direitos hoje

Qualquer que seja o resultado, as regras atuais continuam valendo até que uma nova seja publicada. Hoje você pode retirar de graça os medicamentos do Farmácia Popular com receita válida e documento com CPF, e tem direito aos medicamentos da lista do SUS na rede pública. Se você busca diagnóstico ou tratamento de TDAH pela rede pública, veja o guia TDAH pelo SUS em 2026.

Perguntas frequentes

O presidente pode acabar com o SUS?

Não sozinho. O SUS está previsto na Constituição, e mudar isso exige emenda constitucional aprovada pelo Congresso. O que um governo consegue mudar é a forma de financiar, organizar e priorizar os serviços.

O Farmácia Popular pode mudar depois da eleição?

Pode. A lista de medicamentos, a gratuidade e o orçamento do programa são definidos pelo Ministério da Saúde e pelo orçamento federal, que mudam a cada governo. Até aqui, nenhuma alteração foi anunciada.

Quem decide quais remédios o SUS fornece?

O Ministério da Saúde, com base nas recomendações da Conitec, a comissão que avalia a incorporação de tecnologias ao SUS. Os medicamentos fornecidos constam da Rename, a relação nacional de medicamentos essenciais.

O governo controla o preço dos remédios?

Em parte. A CMED, câmara ligada ao governo federal, define o preço máximo de cada medicamento e o teto do reajuste anual. Farmácias e fabricantes podem cobrar menos, nunca mais do que esse limite.

Quando é o segundo turno das eleições de 2026?

Se nenhum candidato a presidente tiver mais da metade dos votos válidos no primeiro turno, o segundo turno será em 25 de outubro de 2026.

Onde encontro o plano de governo de cada candidato?

No DivulgaCandContas, o sistema do Tribunal Superior Eleitoral. Cada candidatura registrada traz o plano de governo completo em PDF.

Promessa de campanha vira obrigação depois da posse?

Não. O plano de governo é um compromisso público, mas não tem força de lei. O que sai do papel depende do orçamento, do Congresso e de acordos com estados e municípios.

Como este texto foi feito: as propostas foram resumidas a partir de levantamentos jornalísticos sobre os planos de governo registrados no TSE, e não da leitura integral de cada plano. O FarmaCerto é um portal de saúde, não apoia candidatos e não recebe verba de campanha. O texto será atualizado quando o resultado do primeiro turno for oficial.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral; Ministério da Saúde; Futuro da Saúde (19/08/2026); Gazeta da Amazônia (25/09/2026).


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