Remédios para Câncer no SUS: o Que Muda com a AF-Onco e Quem Será Atendido

Wagner Fernandes, Farmacêutico CRF-RO 4509
Wagner FernandesFarmacêutico · CRF-RO 4509Revisado clinicamente em outubro de 2026

AF-Onco, direto ao ponto

A AF-Onco é o novo modelo do SUS para comprar e entregar remédios contra o câncer: o Ministério da Saúde iniciou o projeto-piloto no Icesp, em São Paulo, em 30 de setembro de 2026, com 23 medicamentos, 25 novas indicações de tratamento e previsão de atender cerca de 111 mil pacientes.

  1. O paciente continua tratando no hospital habilitado em oncologia (Cacon ou Unacon)
  2. O hospital passa a pedir autorização prévia, em sistema, para medicamentos centralizados ou de altíssimo custo
  3. A farmácia do hospital confere a autorização antes de dispensar
  4. São 13 serviços no piloto, segundo o Ministério da Saúde
  5. Orçamento anual estimado para os novos medicamentos: R$ 2,1 bilhões

O que é a AF-Onco e por que ela foi criada?

AF-Onco é a sigla de Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia. Ele foi instituído pela Portaria GM/MS nº 8.477, de 20 de outubro de 2025, que regulamenta o financiamento, a aquisição, a distribuição e a dispensação de medicamentos oncológicos no SUS. A portaria considera oncológico qualquer medicamento usado no tratamento do câncer, incluindo quimioterápicos, terapias-alvo, imunoterapias e hormonioterapias.

A página oficial da AF-Onco resume o objetivo: assegurar que pacientes em tratamento de câncer tenham acesso a medicamentos, seguindo os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) e a Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer. A lista de medicamentos é pactuada entre União, estados e municípios na Comissão Intergestores Tripartite.

No modelo anterior, a compra de boa parte desses remédios ficava a cargo de cada hospital, o que abria espaço para diferenças de acesso entre os serviços. Organizar esse acesso é o objetivo declarado do novo componente, e o tema também aparece no debate sobre o acesso a medicamentos no SUS nas eleições de 2026.

O que muda para o paciente com câncer no SUS?

O local do tratamento não muda. O paciente segue no hospital habilitado em oncologia e não precisa buscar remédio em outro endereço. O que muda é o caminho do medicamento, da prescrição até a entrega. Segundo a nota do Ministério da Saúde de 2 de outubro de 2026, o modelo testado funciona assim:

  1. O hospital (Cacon ou Unacon) pede, em sistema, autorização prévia para os medicamentos centralizados ou de altíssimo custo
  2. A farmácia do hospital confere essa autorização antes de dispensar
  3. O tratamento é registrado em uma Autorização de Procedimento de Alta Complexidade (APAC) exclusiva da oncologia
  4. Os sistemas do SUS cruzam autorizações e procedimentos realizados, o que permite acompanhar o tratamento de cada paciente

A portaria define que a autorização prévia é feita por equipe multiprofissional de nível superior, que verifica se o pedido está de acordo com o PCDT, com os protocolos de uso ou, na ausência deles, com as recomendações da Conitec, conforme o artigo 15 da Portaria GM/MS nº 8.477/2025. É a mesma comissão que avalia a entrada de novas tecnologias no sistema público, como mostramos ao explicar o que já foi decidido sobre as canetas emagrecedoras no SUS.

Orientação do farmacêuticoPara quem está em tratamento, a regra de ouro continua a mesma: não interrompa nem adie ciclo por conta de notícia sobre mudança de sistema. Se o hospital avisar que um medicamento depende de autorização, pergunte à farmácia qual é a previsão e anote o nome de quem atendeu você.

Quais medicamentos e quantos pacientes entram na AF-Onco?

O Ministério da Saúde informa 23 medicamentos e 25 novas indicações de tratamento, com previsão de atender cerca de 111 mil pacientes e orçamento anual estimado em R$ 2,1 bilhões para incorporar os novos medicamentos, de acordo com a nota oficial sobre o piloto no Icesp.

A forma de compra varia conforme o medicamento:

Modalidade de compraQuantos medicamentosQuem compra
Compra centralizada10Ministério da Saúde, que distribui aos estados e hospitais
Ata de negociação nacional9Ministério negocia o preço e as secretarias estaduais executam
Aquisição descentralizada4O próprio hospital habilitado em oncologia

A nota não traz o nome de cada medicamento, por isso não reproduzimos uma lista aqui. A relação oficial fica na página da AF-Onco no site do Ministério da Saúde, que reúne a lista do componente oncológico, o elenco de altíssimo custo e o elenco sujeito a autorização prévia. Aprovação na Anvisa e oferta no SUS são etapas diferentes: um remédio pode ter registro, como aconteceu com o Enhertu para câncer de mama HER2-positivo, e ainda depender de incorporação e de compra para chegar ao paciente da rede pública.

Onde o projeto-piloto está funcionando?

O Icesp, ligado ao Hospital das Clínicas da USP, é um dos 13 serviços escolhidos para testar o sistema. A implantação começou em 30 de setembro de 2026, com oficina e treinamento das equipes, segundo o Ministério da Saúde. Os serviços citados na nota são:

  1. São Paulo (SP): Icesp
  2. João Pessoa (PB): Hospital Napoleão Laureano, Hospital São Vicente de Paulo e a central de abastecimento farmacêutico da secretaria estadual
  3. Campina Grande (PB): Fundação Pedro Américo, Hospital da FAP e HUAC
  4. Patos (PB): Hospital Regional Deputado Janduhy Carneiro
  5. Brasília (DF): HUB
  6. Recife (PE): IMIP
  7. Caruaru (PE): Hospital Mestre Vitalino
  8. Belém (PA): Hospital Ophir Loyola

No Paraná, a implementação começou em 1º de outubro de 2026 pelo Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba, conforme outra nota do Ministério da Saúde. As notas oficiais não informam a data em que o modelo chegará aos demais hospitais do país.

Seu hospital não está na lista?Isso não significa que o tratamento será interrompido. O piloto serve para testar o sistema antes da expansão. Nos demais hospitais, o atendimento segue pelo fluxo atual até nova orientação do Ministério da Saúde e da secretaria de saúde do seu estado.

Por que a farmácia do hospital ganha mais peso?

Porque é ela que confere a autorização, dispensa o medicamento e registra o uso. A portaria coloca entre os deveres dos hospitais habilitados prestar cuidado farmacêutico integral ao paciente oncológico, segundo o artigo 17 da Portaria GM/MS nº 8.477/2025. Ela também trata das centrais de diluição, onde quimioterápicos injetáveis são preparados.

Medicamento oncológico tem margem de segurança estreita. Dose, intervalo e forma de preparo errados causam dano real, e parte do tratamento hoje é feita em casa, com comprimidos e cápsulas. Vale reler as orientações sobre como evitar erro de medicação em casa e como notificar à Anvisa.

Orientação do farmacêuticoQuem usa quimioterapia oral deve levar a cada consulta a lista completa do que toma, incluindo chás, suplementos e remédios sem receita. Várias interações com medicamentos oncológicos passam despercebidas porque o paciente não considera esses produtos como remédio.
Dúvida sobre tipos de receita, validade e o que a farmácia pode exigir?
Abrir o guia de receitas de medicamentos

O que mais o SUS mudou em oncologia e medicamentos de alto custo?

A reorganização dos remédios vem junto com mudanças no diagnóstico. Outubro é o mês da campanha de prevenção do câncer de mama, e as regras de idade para o rastreamento estão no nosso texto sobre quem pode fazer mamografia no SUS aos 40, 50 e após os 74 anos.

A compra centralizada pelo governo federal também não é novidade em outras áreas. O mesmo raciocínio de escala e produção nacional aparece no acordo para produzir imunoglobulina no Brasil.

Este texto é informativo e segue a nossa política editorial. Decisões sobre o seu tratamento cabem à equipe que acompanha você.

Perguntas frequentes

É o Componente da Assistência Farmacêutica em Oncologia do SUS, criado pela Portaria GM/MS nº 8.477, de 20 de outubro de 2025, para organizar o financiamento, a compra, a distribuição e a entrega dos medicamentos usados no tratamento do câncer.
O paciente continua sendo tratado no hospital habilitado em oncologia. O que muda é o caminho do remédio: o hospital pede autorização prévia em sistema para medicamentos centralizados ou de altíssimo custo e a farmácia confere essa autorização antes de dispensar.
Segundo o Ministério da Saúde, são 23 medicamentos e 25 novas indicações de tratamento, com previsão de atender cerca de 111 mil pacientes e orçamento anual estimado em R$ 2,1 bilhões.
O Ministério da Saúde informou 13 serviços no piloto, entre eles o Icesp, em São Paulo, hospitais de João Pessoa, Campina Grande e Patos, na Paraíba, o HUB, em Brasília, o IMIP, no Recife, o Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru, e o Hospital Ophir Loyola, em Belém.
Não. Os medicamentos oncológicos da AF-Onco são dispensados e administrados pelos hospitais habilitados em oncologia (Cacon e Unacon), não pela unidade básica nem pela Farmácia Popular.
Pela portaria, a autorização prévia é feita por equipe multiprofissional de nível superior, que verifica se o pedido segue os Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas, os protocolos de uso ou, na falta deles, as recomendações da Conitec.
Na página oficial da AF-Onco no site do Ministério da Saúde, que reúne a lista de medicamentos do componente oncológico, o elenco de altíssimo custo e o elenco sujeito a autorização prévia.
Converse primeiro com a farmácia e o serviço social do hospital onde você trata. Persistindo o problema, registre a queixa no OuvSUS, pelo Disque 136, canal indicado na página oficial da AF-Onco.

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